Homenagem de António Vasconcelos Raposo a Teotónio Lima, pioneiro da Metodologia do Treino em Portugal
Sessenta anos após a elaboração das suas primeiras Notas de Apoio ao curso de Instrutores de Educação Física, em Lourenço Marques, o Professor António Vasconcelos Raposo homenagea o Professor José Teotónio Lima, pioneiro na fundamentação científica da metodologia do treino desportivo em Portugal. Através de um percurso dedicado ao ensino, à investigação e à divulgação do conhecimento, contribuiu decisivamente para a formação de gerações de Treinadores e para uma visão do treino assente na ciência, no pensamento crítico e na compreensão do atleta. Um legado incontornável para a história e o desenvolvimento do treino desportivo português.
Há precisamente sessenta anos, no ano lectivo de 1966 a 1967, um professor português, a leccionar na Escola de Instrutores de Educação Física de Lourenço Marques, sentava-se à sua mesa de trabalho e começava a redigir aquilo que, sem alarde e sem pretensão de posteridade, viria a constituir um dos documentos mais notáveis da história do pensamento desportivo de expressão portuguesa. Chamava-se esse professor José Teotónio Lima. As suas Notas de Apoio ao curso de Instrutores, com as cerca de cento e vinte páginas que hoje ainda podemos consultar e admirar, não nasceram para a gloria, nasceram para servir os alunos que tinha diante de si, num território distante da metrópole, onde os livros escasseavam e a informação científica chegava tarde e mal. E, no entanto, foi precisamente ali, nessa periferia geográfica e política do espaço colonial português, que se ensaiou uma das primeiras tentativas verdadeiramente sistemáticas de fundamentação científica da metodologia do treino desportivo em língua portuguesa.
Quem hoje folheia essas páginas amarelecidas pelo tempo encontra, com genuína surpresa, um professor que dialogava, em condições de manifesto isolamento bibliográfico, com Morehouse e Miller, com Gerschler e Reindell, com Holmér, com Selye, com Lawther e Bunn, com Cureton, cruzando a fisiologia germânica e escandinava com a psicologia norte americana do treinador e com a teoria soviética da periodização, esta ainda mal conhecida na própria Europa ocidental. Não era um compilador de fórmulas ginásticas, nem um repetidor de manuais escolares. Era um homem que procurava compreender, e ensinar a compreender, o que verdadeiramente significa treinar um corpo e preparar uma mente para a competição. A distinção entre resistência generalizada e resistência específica, a discussão informada do fartlek e do treino intervalado, a fundamentação fisiológica da carga a partir do síndrome geral de adaptação, a reflexão sobre a psicologia e a exigência humana da função de treinador, tudo isto se encontra já ali, articulado com um rigor e uma actualização que a formação desportiva portuguesa do continente, presa então a uma tradição de raiz sueca e alemã e a um empirismo federativo pouco questionado, longe estava de possuir.
É por isso justo, e é sobretudo devido, que passados estes sessenta anos se preste a Teotónio Lima a homenagem que a sua obra silenciosamente reclama. Não se trata de erguer um monumento vão à memória de um homem, trata-se de restituir à história do treino desportivo português um nome que lhe pertence por direito próprio. E esse direito não se esgota nas páginas redigidas em Lourenço Marques: prolongou-se, com igual rigor e renovado fôlego, nos anos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974, quando o regresso à metrópole não significou o silêncio, mas antes a continuidade de um trabalho incansável de divulgação e de ensino. Foi nesse Portugal em reconstrução democrática e desportiva que Teotónio Lima disponibilizou generosamente livros antigos, muitos deles raros e de difícil acesso, que fez circular comunicações em congressos e encontros técnicos, e que assinou editoriais onde, uma vez mais, cruzava as fontes internacionais com a realidade nacional. Em todos esses textos, dispersos por revistas, boletins federativos e cadernos de formação, mantinha-se fiel a uma mesma visão: a de que o treinador é, antes de tudo, um estudioso do corpo humano e da adaptação, e nunca um mero executor de rotinas herdadas sem exame crítico.
Que esta efeméride sirva, pois, não apenas para recordar um professor e a sua obra inicial, mas para repor a verdade histórica no lugar que lhe é devido, reconhecendo a continuidade de um percurso que atravessou décadas e regimes sem nunca perder a sua coerência intelectual. A metodologia do treino desportivo em Portugal teve um introdutor e, depois de 1974, um obstinado divulgador e formador de gerações. Chamou-se Teotónio Lima. Começou essa história em Lourenço Marques, há mais de meio século, e continuou a escrevê-la, livro após livro, comunicação após comunicação, editorial após editorial, numa metrópole que, também graças a ele, foi finalmente aprendendo a pensar cientificamente o treino desportivo.
António Vasconcelos Raposo
