“CANOAGEM OBRIGA-NOS A SACRIFICAR A FAMÍLIA”

A canoagem portuguesa vive tempos altos de que as prestações no recente Europeu da Modalidade, em Belgrado, na Sérvia, são apenas um exemplo. Em apenas três dias de competição, Portugal arrebatou medalhas de ouro em K2 200, pela dupla Teresa Portela/Joana Vasconcelos, em K1 1000, por Fernando Pimenta, com este canoísta a somar mais uma medalha de prata em K1 5000 e uma de bronze em K1 500.

Como tantas vezes acontece, as atenções estiveram (justamente) centradas nos canoístas, tanto mais que Fernando Pimenta conseguiu o feito de somar o terceiro título europeu consecutivo em K1 1000, mas aqui, no site da Treinadores de Portugal, queremos mostrar um pouco do homem que está na retaguarda dos sucessos de Pimenta, Portela e Vasconcelos – o técnico nacional, Hélio Lucas.

Aos 45 anos de idade, o treinador tem “toda a vida” dedicada à modalidade e para ele falar de canoagem é o mesmo que falar de trabalho longe de casa.

“Ao longo do ano, são praticamente 10 meses de preparação. Apenas nos meses de setembro e outubro não temos estágios. A partir de outubro começam os treinos e em novembro começam os estágios da seleção nacional, com os atletas a participarem em duas a três semanas de estágio por mês”, começa por nos contar Hélio Lucas.

“Isso implica, naturalmente, um grande sacrifício pessoal de todos, já que passam muito pouco tempo em casa, com as famílias. Mas mesmo em casa, há trabalho a fazer e como tanto eu como o Fernando Pimenta vivemos em Ponte de Lima, lá nos encontramos mesmo nos chamados dias de folga para um pequeno treino e por isso dizemos que os grandes sacrificados são as famílias”, confessa o técnico nacional.

Hélio Lucas explica-nos um pouco como o trabalho de bastidores é desenvolvido ao longo do ano.

“Os estágios são divididos entre Montemor-o-Velho, onde está o centro de estágios nacional e outros locais, por questão de quebra de rotinas ou outras. Por exemplo, já estivemos na cidade do México, numa preparação em altitude, outro em Sevilha, para adaptação às temperaturas mais elevadas. Procuramos diversificar os locais, porque também é importante para que os atletas não se saturem com as mesmas rotinas sempre nos mesmos locais. O Campeonato do Mundo vai ser em Montemor-o-Novo, entre 22 e 26 de agosto, mas já começamos a preparação na barragem da Aguieira, onde temos todas as condições. Depois, iremos para o Alentejo ou para a Galiza, e finalmente, o último estágio de três semanas, será já na pista de Montemor-o-Velho”, revela.

Desde o início do ano que Hélio Lucas passou a orientar, também, a seleção feminina, o mesmo é dizer, que o trabalho duplicou.

“Isso obrigou a adaptações, porque as distâncias para as senhoras são diferentes, mais curtas, e isso necessita de planos diferentes, a estabelecer diferentes horários de treino, desde manhã cedo, até fim da tarde. É um trabalho de quase 24 horas por dia… O trabalho divide-se entre a parte técnica e a física, com ginásio, mas na pista. Temos de avaliar o desenrolar do trabalho feito, também com recurso a vídeo, falar bastante com os atletas, trocarmos ideias, enfim, procurar sempre as melhores soluções para que eles possam evoluir”, acrescenta.

Para um espetador menos atento, os canoístas são pouco mais que atletas bem musculados que dirigem uma embarcação à custa do músculo. Mas a verdade é que a técnica é absolutamente decisiva, como conta o técnico nacional.

“A técnica é fundamental. O objetivo é que os atletas se tornem eficazes e que com a mesma pagaiada consiga percorrer uma distância maior e para isso temos de trabalhar todo o corpo – braços, pernas, tronco, ancas. Na canoagem todo o corpo mexe e por isso a melhoria técnica é fundamental. Nas equipas, por exemplo, há que trabalhar a sintonia dos movimentos, porque há pagaias que devem entrar na água primeiro que outras, no sentido de ajudar quem vai à frente na embarcação. Só que estamos a falar de milésimos de segundo e isto implica um treino muito intenso”, destaca Hélio Lucas.

Por vezes há imponderáveis que nenhum treino pode evitar. Foi o que aconteceu com Fernando Pimenta nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, quando o lixo existente na pista o impediu de conquistar a medalha de ouro. Porque Hélio Lucas não tem dúvidas que o seu pupilo venceria a prova e como novo recorde olímpico.

“Muita gente ainda pensa que isso foi uma desculpa, mas a verdade é que o Fernando Pimenta estava em condições de tirar três segundos ao recorde olímpico. Naquela prova, curiosamente, os quatro canoístas mais fortes foram travados pelas algas e os quatro menos favoritos ficaram à frente. Basta dizer que o vencedor da medalha de ouro no Rio nunca mais ganhou qualquer medalha em provas internacionais”, sublinha.

A modalidade tem crescido um pouco por todo o país, mercê da exposição mediática conseguida com os resultados internacionais na última década.

“É sinal de que a modalidade está no bom caminho. Há clubes de norte a sul, pois para se fazer canoagem quase basta ter um rio ou uma albufeira. Depois é uma questão de dedicação”, sublinha Hélio Lucas que reconhece, por outro lado, não ser fácil dedicar-se ao treino da canoagem a tempo inteiro.

“Tem que haver um misto de paixão pela modalidade e dedicação à causa. Temos de abdicar praticamente da família duas a três semanas por mês durante vários meses por ano. É duro, bastante absorvente. Com o Projeto Olímpico, da forma como foi feito, as coisas estão melhores. Mas ninguém está aqui pelo dinheiro”, concluiu Hélio Lucas, o treinador por trás das medalhas de Fernando Pimenta, Teresa Portela e Joana Vasconcelos.

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